E foi assim, simplesmente um dia todos acordaram e ele não estava mais lá. O morro havia sumido, desaparecido. As casas lá de cima estavam em lugar plano, a rua tornou-se reta, sem nenhum obstáculo.
Ninguém soube explicar como isto havia acontecido, ninguém sentiu nada, ninguém viu nada.
De repente, ouve-se um grito: “foi assassinato”. Dentre o espanto geral, conseguia se ouvir alguns “já não era sem tempo”, “quem foi?”, “até que enfim”.
Havia sinais de tortura, a terra estava remexida, riscos no chão mostravam que não havia sido fácil dar fim no morro sem que ninguém notasse. Uma criança até disse ter ouvido um “socorro”, que logo foi sufocado pelos latidos e uivos dos cachorros.
Pensou-se em chamar a polícia, afinal um assassino estava entre os moradores. Mas, logo se desistiu. Queriam mesmo é saber como alguém tinha conseguido acabar com aquele tormento: o morro.
Diante de tanta felicidade, a vida foi voltando ao normal. Um normal bem mais agradável agora, sem aquele causador de discórdias. Todos foram ao trabalho, à escola, aos seus afazeres costumeiros. Ninguém se importou com o fato de um assassino de morros estar livre. Mas um certo sorriso persistia no rosto do últimos moradores da rua. Afinal, nunca mais morro, nunca mais sol do meio-dia morro acima, chuva e lama morro acima.
Durante três dias não se falou em outra coisa, apenas no fim do morro. A rua estava mais leve agora, mais alegre, mais reta mesmo.
Nunca se soube quem conseguiu fazer aquele ato. Uns dizem que foi o trombolho*num momento de fúria. Outros dizem que foram os dois trombolhos. Tem também quem fale que foi o motoqueiro maluco que levou o morro junto, quando descia correndo, como já era de costume. Há, ainda, quem diga que não foi assassinato, foi suicídio: o morro cansou-se de ser xingado e maltratado por todos que por cima dele passavam.
O fato é que o morro foi assassinado e ninguém teve pena ou sente saudades. O assassino nunca foi descoberto. Muitos já nem lembram que um dia o morro existiu. Outros não se esquecem de todos os momentos que nele passaram.
*trombolho: apelido carinhoso para aquele caminhão que todo mundo detesta, pois só atrapalha e incomoda todos os moradores, faz buracos na estrada e pensa que é dono da rua.











